quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Esqueci de esquecer (Doces lembranças)

Hoje acordei com saudade. Assim de bobeira.
Saudade de coisas tolas, importantes ou até das quais nem me lembrava direito.
Saudade do cheiro do mar quando a gente chegava próximo ao cais. Daquele pier que balançava embaixo dos nossos pés e era um exercício de equilíbrio não cair sentado.

Saudade de um bom amigo que sumiu no mundo e nunca mais ouvi falar. Da calçada em volta do hospital onde minha mãe trabalhava que, em determinada época do ano ficava quase toda roxa com o jambolão que caía das árvores imensas.

Saudade do vendedor de paçoquinha que passava na minha rua. O carrinho dele era em forma de maria fumaça e tinha o apito mais agudo do mundo! Dava pra ouvir de longe!

Saudade do Empório Gabo do "seu" Manoel que ficava na rua de baixo e que ainda vendia feijão, fubá, farinha, tudo direto das sacas. Tinha um daqueles baleiros giratórios que ficava em cima do balcão e estava sempre recheado de balas de leite Kids e das famigeradas balas Soft! Tinha uma vitrine embaixo com a tentação de qualquer criança(bom, pelo menos, qualquer criança da época...): maria mole, suspiro colorido, doce de abóbora em forma de coração, aquela casquinha com doce de banana que a gente comia com uma pazinha de madeira, paçoquinha Amor! Ah, as paçoquinhas Amor! Outro dia achei numa banca perto de casa.

Lembrei do arroz amarelo de açafrão que às vezes a gente comia na casa da Dona Dina, nossa vizinha vinda do Pará. Será que ela ainda é viva?

Das bricadeiras na casa do Silvio, que tinha uma avó bravíssima e do Anderson que era budista. Achava aquilo tudo muito estranho e engraçado.

Era sempre bom ir pra escola à bordo do Trolebus que rodava desengonçado pela cidade inteira. Saudade do lanche Mirabel na lancheira e da limonada que sempre amargava até a hora do recreio.

Tudo parecia tão bom.

Senti saudade até do barulho horroroso dos caminhões Fenemê que passavam quase diariamente pela minha rua em direção ao porto.

Engraçado como a gente sente falta de coisas pelas quais não dá um tostão mas, que no fim das contas são as que mais ficam na memória.

Pode até parecer que esse é uma história sobre lembranças pra deixar a gente triste, mas não. Bom, talvez só um pouco.

Mas sabe o que é? São essas coisas que acabam te fazendo sorrir meio sem querer. Sabe aquela saudadinha boa de sentir. Aquela sensação de que a vida é realmente boa por causa dessas bobagens? Então.

Boas lembranças. Coisinhas guardadas com carinho num cantinho qualquer da sua mente. Pode procurar, está tudo lá!

Ninguém joga fora.

Eu consigo ouvir o ruído, sentir até o cheiro.

E você?

3 comentários:

  1. será que vivemos cada vez mais naquele tempo?

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  2. Acho que sim. Não se precisava quase nada pra ser feliz. Acho que a gente cresceu e entristeceu. A felicidade hoje é uma busca árdua. Naquela época, apenas estava lá.

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